“Encosta tua mão na terra, Lua.
E respira.”
A voz não veio de longe.
Nasceu no encontro do vento com as folhas, atravessou as raízes e chegou até mim como um pensamento que não parecia meu.
Então, o elemental falou, e suas palavras soaram como uma oração:
“Terra antiga,
recebe de mim o que já cumpriu seu tempo.
Faz das minhas perdas adubo,
das minhas memórias, raiz,
do meu silêncio, semente.
Ensina-me a confiar no que começa no escuro,
quando ainda não existe forma,
nome
ou certeza.
Que eu não tema o intervalo entre uma estação e outra.
Que eu reconheça no vazio
o lugar onde a vida se prepara.
Procurei respostas no céu.
Procurei caminhos fora de mim.
Mas foi quando toquei a terra
que me lembrei:
eu nunca estive separada.
Sou raiz,
sou folha,
sou vento
e travessia.”
Por um instante, as margens do meu corpo silenciaram.
Eu já não sabia onde terminava
e onde a floresta começava.
E foi ali,
entre aquilo que eu era
e aquilo que ainda não sabia ser,
que as folhas me encontraram.
Vieram reunir os fragmentos da minha história.
Vieram construir corpos, animais, sonhos e memórias.
Vieram dar forma ao invisível
e dizer, em silêncio,
o que as palavras ainda não alcançavam.
A folha não chegou apenas como elemento.
Chegou como linguagem.
“Sagrada seja a folha que nasce.
Sagrada seja a folha que cai.
Sagrada seja a terra que transforma despedida em alimento.
Que eu saiba deixar partir
o que já entregou seu ensinamento.
Que eu leve comigo apenas o que ainda pulsa.
Que minhas raízes sejam profundas,
mas não me impeçam de caminhar.
Que eu confie no que insiste em brotar.
Que eu proteja o que ainda é semente
e respeite o tempo secreto das coisas.
Nem toda criação precisa ser compreendida.
Algumas chegam apenas para ser sentidas.
Agora, respira.
Escuta o movimento das folhas.
O caminho não exige todas as respostas.
Pede somente o primeiro passo.
O restante será revelado
enquanto você caminha.
Você não está deixando sua história para trás.
Está permitindo que ela floresça
de outra forma.”
Então, a voz silenciou.
O vento atravessou novamente as folhas e, por um instante, toda a floresta pareceu respirar comigo.
Desta vez, aquele som não pareceu uma despedida.
Pareceu a terra dizendo:
“Pode seguir.
O seu novo ciclo já começou.”
lua felicia
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