Post · 11/08/2026

Encosta tua mão na terra

O elemental fala pelo vento, pelas raízes e pelas folhas, como uma presença que reconhece o instante em que a linguagem finalmente começa a florescer.

Encoste as mãos na terra, lua.

“Encosta tua mão na terra, Lua.

E respira.”

A voz não veio de longe.

Nasceu no encontro do vento com as folhas, atravessou as raízes e chegou até mim como um pensamento que não parecia meu.

Então, o elemental falou, e suas palavras soaram como uma oração:

“Terra antiga,
recebe de mim o que já cumpriu seu tempo.

Faz das minhas perdas adubo,
das minhas memórias, raiz,
do meu silêncio, semente.

Ensina-me a confiar no que começa no escuro,
quando ainda não existe forma,
nome
ou certeza.

Que eu não tema o intervalo entre uma estação e outra.

Que eu reconheça no vazio
o lugar onde a vida se prepara.

Procurei respostas no céu.
Procurei caminhos fora de mim.

Mas foi quando toquei a terra
que me lembrei:

eu nunca estive separada.

Sou raiz,
sou folha,
sou vento
e travessia.”

Por um instante, as margens do meu corpo silenciaram.

Eu já não sabia onde terminava
e onde a floresta começava.

E foi ali,
entre aquilo que eu era
e aquilo que ainda não sabia ser,
que as folhas me encontraram.

Vieram reunir os fragmentos da minha história.

Vieram construir corpos, animais, sonhos e memórias.

Vieram dar forma ao invisível
e dizer, em silêncio,
o que as palavras ainda não alcançavam.

A folha não chegou apenas como elemento.

Chegou como linguagem.

“Sagrada seja a folha que nasce.
Sagrada seja a folha que cai.
Sagrada seja a terra que transforma despedida em alimento.

Que eu saiba deixar partir
o que já entregou seu ensinamento.

Que eu leve comigo apenas o que ainda pulsa.

Que minhas raízes sejam profundas,
mas não me impeçam de caminhar.

Que eu confie no que insiste em brotar.

Que eu proteja o que ainda é semente
e respeite o tempo secreto das coisas.

Nem toda criação precisa ser compreendida.

Algumas chegam apenas para ser sentidas.

Agora, respira.

Escuta o movimento das folhas.

O caminho não exige todas as respostas.

Pede somente o primeiro passo.

O restante será revelado
enquanto você caminha.

Você não está deixando sua história para trás.

Está permitindo que ela floresça
de outra forma.”

Então, a voz silenciou.

O vento atravessou novamente as folhas e, por um instante, toda a floresta pareceu respirar comigo.

Desta vez, aquele som não pareceu uma despedida.

Pareceu a terra dizendo:

“Pode seguir.

O seu novo ciclo já começou.”

lua felicia

projetos autorais · tatuagens · colaborações

Alguma dessas imagens
te encontrou?

Se uma obra permaneceu com você, talvez exista algo nela querendo continuar essa conversa.

conversar pelo Instagram