A poética das folhas
Talvez tudo comece com uma folha.
Antes da flor, antes do fruto, antes da sombra, existe esse pequeno corpo que se abre para a luz.
Passei muito tempo procurando uma linguagem para o meu trabalho. Procurava nos símbolos, nos animais, nos corpos, no sagrado, nas coisas que habitam meus sonhos e nas formas que encontro na natureza.
Até perceber que não precisava escolher entre elas.
Havia algo capaz de atravessar todas.
A folha.
A partir dela, posso construir um animal.
Um rosto.
Uma casa.
Uma lua.
Um corpo.
Uma criatura que nunca existiu.
Mas não quero colocar folhas sobre as coisas.
Quero que as coisas nasçam delas.
No meu trabalho, a folha não é ornamento.
Ela é estrutura.
É pele, músculo, osso, movimento e sombra.
Cada folha precisa sustentar alguma coisa. Se eu a retirar, a forma deve sentir sua ausência.
É nesse encontro que encontro meu surrealismo: não na deformação, mas na possibilidade de uma coisa existir dentro de outra.
Um lobo pode nascer de uma lobeira.
Uma serpente pode carregar a chacrona no próprio corpo.
Uma lua pode ser feita de marantas.
E aquilo que reconhecemos de imediato pode revelar, alguns segundos depois, uma segunda natureza.
Primeiro, a forma.
Depois, a folha.
Quero preservar também a identidade de cada planta.
Uma folha não é simplesmente uma folha.
Ela tem espécie, nervuras, margens, proporções, texturas, histórias e territórios.
Por isso, estudar botânica passa a fazer parte do meu fazer artístico. Conhecer uma planta é também aprender uma nova possibilidade de desenho.
Meu trabalho nasce do preto, do cinza e do vazio.
Do traço fino.
Do ponto.
Do silêncio entre uma forma e outra.
Não quero preencher todos os espaços.
Quero deixar lugares onde a pele possa respirar.
Porque o vazio também desenha.
E talvez tatuar uma folha seja uma maneira de devolver ao corpo alguma coisa que sempre pertenceu à natureza.
Não como representação.
Como pertencimento.
Meu trabalho continuará falando de animais, pessoas, espiritualidade, memória, mistério, ancestralidade e imaginação.
Mas haverá um fio atravessando tudo.
Ou melhor:
uma nervura.
Talvez, daqui para frente,
todas as minhas obras nasçam de uma folha.
lua felicia
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